Conectando os pontos #002

Netflix, Tieta e o cinema nacional

Consegui finalmente assistir ao bate-papo entre a produtora executiva Samanta Moraes, da Fábrica, e Adrien Muselet, Diretor de Conteúdo e Aquisição da Netflix Brasil, no Expocine 2020.

Adrien abordou todos os pontos clássicos desse tipo de entrevista com um grande player da indústria audiovisual: como apresentar projetos, o que funciona ou não, estratégias para o país, diversidade de conteúdo e modelos de negócio.

Nosso cinema passa por mais uma encruzilhada, daquelas capazes de ser classificada como ‘fim do Ciclo da Retomada’ pelos historiadores. Uma tempestade perfeita, misturando desprezo governamental, pandemia mundial, mudança de paradigma tecnológico e paralisação dos órgãos de regulação e fomento.

E o que isso tem a ver com a Netflix?

Nada. E tudo. Desde a Retomada em 1994, o nosso tripé audiovisual do cinema (produção, distribuição e exibição) mais se assemelha a uma muleta, apoiada no braço paternalista do Estado através dos mecanismos de fomento direto e indireto no pé da produção.

Mas, Tiago, nenhuma cinematografia periférica sobrevive sem o apoio estatal.

Concordo em gênero, número e grau. Porém, nenhuma cinematografia com intenções industriais deveria depender apenas disso. Não à toa, parte dos mecanismos vigentes até hoje foram criados com data de expiração, justamente para serem o pontapé inicial de um processo rumo à sustentabilidade. O que (ainda) não ocorreu. E essa discussão é bem antiga.

Mas a TV conseguiu ser sustentável e criar uma indústria.

Verdade. Mas a TV no Brasil é um caso a parte. Aqui vale uma analogia.

Nosso cinema nasceu cedo, foi recebido com alegria, mas logo foi deixado à própria sorte pelo pai Estado (curiosamente apelidado de Novo) e apanhava em casa dos próprios vizinhos. De tempos em tempos, esse pai arrependido aparece e dá uma pensão alimentícia. São os ciclos do Cinema Nacional.

Por outro lado, nossa TV nasceu prematura, de parto forçado, mas teve toda a proteção do paizão Estado (já mais maduro e linha-dura) durante sua infância para poder crescer. E rapidamente arrumou uma companheira, a publicidade, se casaram, saíram da casa dos pais com uma Concessão de primeira e uma rede de satélites de enxoval e foram felizes para sempre. Me-ri-to-cra-cia que fala né.

Para completar o álbum de família, o primogênito esculhambado e o caçula mimado nunca se deram muito bem. O cinema tocou sua vida, da melhor maneira que pôde. A TV aprendeu as manhas com seu primo mais velho, o rádio (que já conhecia a publicidade de priscas eras) e se deu bem. Tão bem que até tiveram uma filha, a TV paga.

Que analogia tosca. Onde entra a Netflix nela?

Obrigado. Servindo bem para servir sempre. Sigamos.

A TV paga cresceu e, quando começava a retomar o contato com o tio, aterrisou no país, igual Tieta, uma tia do estrangeiro. Daquelas tias solteiras, descoladas, pra frentex, esquerdista, fã do Boulos, parida em Woodstock… você já entendeu a ideia. Ela mesma, a Internet.

Causou um certo rebuliço, mas ninguém a levou muito a sério. Loucona, de cabeça muito aberta pro pessoal de Mangue Seco, ela recebia todo mundo em casa, sem nenhum preconceito. E assim foi, aos poucos, ocupando seu espaço. E lá pelo meio de 2010, já bem estabelecida, decidiu trazer a filha que ninguém sabia da existência. Tan Tan !

A filha ‘nos trinques’ (fãs de Tieta entenderão) veio. E veio montada na grana.

Acaba aqui (por enquanto) nossa analogia.

Com a chegada da Netflix, temos pela primeira vez um player no mercado que não está impedido por regulações governamentais de investir no país nem dependente de verbas estatais ou da publicidade (dominada pelos grupos de mídia nacionais).

Isso em termos de mercado é o que se chama ‘dinheiro bom’. Além de uma nova janela de exibição e fonte de financiamento para os filmes nacionais, a Netflix dá uma rasteira dos outros dois pés do tripé ao mesmo tempo, fazendo a própria distribuição e a exibição global das obras. Uma oportunidade de ouro, que já tinha virado sonho para os produtores nacionais, se torna realidade.

Adrien apresentou as principais formas em que isso se dá atualmente para os filmes locais. São elas:

  • Filmes 100% originais Netflix. Desenvolvimento interno, todo bancado pela empresa. Produtora independente contratada como prestadora de serviço apenas. Ex: ‘Modo Avião

  • Compra de direitos no roteiro. Também conhecido com adiantamento, ou advancement. O streamer fica com os direitos globais de streaming da obra. Direitos patrimoniais da obra permanecem com a produtora. Ex: ‘Cinderela Pop’.

  • Compra de direitos na finalização. Em geral, após o primeiro corte do filme pronto. Similar ao anterior. Ex. ‘Ricos de Amor

  • Licenciamento de obras prontas para o catálogo. Licenciamento padrão para a janela de streaming por um número X de anos. Os direitos patrimoniais permanecem com a produtora. Ex: ‘Tieta’, de Cacá Diegues (pra manter a coerência aqui).

É curioso notar que mesmo sem regulação definida sobre esse tipo de serviço no país (em boa parte por conta da paralisação sistêmica da ANCINE), o streamer conseguiu implementar os modelos de negócio que a indústria cinematográfica nacional há décadas demanda para poder se desvencilhar do apoio Estatal.

Resta saber se a interferência governamental que cedo ou tarde virá mais ajuda ou atrapalha a iniciativa dos grupos estrangeiros de produzir no país (a moça abriu caminho para as amigas Amazon e Disney aportarem por aqui também).

Vale lembrar que a queda do modelo de TV paga levará inevitavelmente à inviabilização da Lei 12.485, que tem sido um dos pilares da retomada e, principalmente, manutenção da produção independente no país.

Em suma, a presença deles no ecossistema audiovisual é bem-vinda e necessária, mas não pode e nem deve ser a única. Quanto mais players, modelos e janelas, mais oportunidades de emprego e geração de renda teremos no Entetenimento.

Se isso tudo vai dar certo ou se manter em 2021? Para mim ainda é um grande:

Quem ama, compartilha.

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Tiago Campany é executivo, produtor, pesquisador e professor. Não necessariamente nessa ordem. Atualmente ajuda o pessoal do departamento de criação da Globo a entender a vida como ela é (trocadilho intencional). E adora tirar dúvidas e sugestões.